sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Juro por Deus, juro mesmo! Qualquer dia desses vou passar por aí. Bater na porta. Arrombar a porta. Só pra lhe dizer que tudo isso é sua culpa. Essa falta de sentido, esse pouco sono, essa ausência de sonhos. Agora eu só deliro. Contigo, ao lado, na cama, no pequeno-almoço. Delírio louco. Te vejo, atravesso a rua e lá está você. De calças e óculos escuros. Um fantasma.
Empalideço. Envelheço. Ganho rugas. Abro e fecho os olhos repetidas vezes. Eu te vejo, depois não te vejo mais. Eu te vejo e não te vejo mais. E então meu coração, dilacerado, começa a bater na frequência normal. TUM-TUM-TUM-TUM. E para mim a vida, essa vida ausente de ti, é uma bomba relógio. TUM-TUM-TUM-TUM-BUM. Quando? Quando Bum?
Ai cansa, volto para casa. Faço pão torrado com manteiga e engulo seco, meu dia seco. Sem conteúdo, mas com mais de um milhão de gramas. Engulo seco o peso nos ombros e esqueço a dor de cotovelo. Tropeço de volta para cama. E nada, nada mesmo. Sem delírio, sem desejo, sem você.
Agora é só viver, me auto conselho. A partir de agora é só viver. Deito seca, na minha cama de solteira. Divido o apartamento com mais mil almas incapazes de me entender. Cade você agora? Que não chega nem em forma de pesadelo. Nem para negar-me um beijo, nem para desfilar diante de mim e jogar os cabelos.
Sofrer de amor é tão banal. E tão fatal. A cada dia de sofrimento algo em você morre. E morre para sempre. Eu vejo. Eu aos poucos nem me reconheço mais. Olho-me no espelho e entristeço. Não há nem mesmo solidão para me acompanhar. Ao meu redor milhares de vozes que não dizem nada.
Vou dar uma volta. Passo por esquinas as quais nunca passei com você, mas mesmo assim é sua a lembrança que vem na mente. Então eu sento, na calçada mesmo. E escrevo uma poesia bem sacana, cujo título tem seu nome. Eu te xingo, te viro do avesso. Falo mal de ti, da sua mãe. Chamo-te de diabo, de Drácula. De meu inferno.
Levanto-me decidida a te enviar a poesia. Mesmo que por pombo-correio. No fim, escrito em letras maiúsculas, meu grito: NÃO TE QUERO, NÃO TE QUERO. Lembro-me de quando você me chamava de mentirosa e de quando dizia: “não sabes mentir, teus olhos são muito sinceros”.
Desfaço-me da poesia, por fim. Meus olhos sinceros choram lágrimas reais e elas se afogam no travesseiro. Em silêncio imploro a qualquer coisa capaz de ouvir meu desespero, mas mil almas dão-me as costas. Elas dizem “quase ai já é Janeiro, como se passou depressa esse ano inteiro”.

domingo, 4 de setembro de 2011

Onde vivem os monstros

Eu tenho medo de dormir.
Porque, quando durmo,
pensamentos assustadores
povoam minha mente.

E aí acordo, assustada,
em pânico.

Meu coração dispara.
E eu, pequena,
nessa cama tamanha,
sem preço, sem calma.

Sozinha, é escuro, é avesso.
Desperto, abro os olhos.
Durmo acordada,
só assim há sonhos sem pesadelos.

Levanto, esqueço, ando, bebo, fumo, deito.
Bem feito, meu sono me acompanha.
Insisto, desfaleço. Meu sono ganha.
De olhos fechados, descanso.

É apenas mais um domingo
Cinzento. É apenas mais um
Pesadelo. Não há monstros
Em baixo da cama.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O tempo não para

Cá estou eu, sentada na mesma velha cadeira onde sentei-me a meses atrás pela última vez. Agora, no entanto, algo diverge dos meus antigos pensamentos de madrugadas insones. É que eu queria você ao meu lado hoje, embora não saiba o que iria dizer-lhe.

Para não pensar nisso, ou em você, olho para os prédios ao redor. Indago-me sobre as pessoas por trás de janelas ainda iluminadas nessa madrugada de segunda-feira qualquer. Ocorre-me a inevitável pergunta: será que elas pensam em você também?

Não, óbvio que não. Provavelmente não te conhecem, nem mesmo ouviram falar de você. Tampouco ouviram o timbre de sua voz, tão doce e baixo. Nem tocaram sua pele, tão suave e macia. Quando paro, percebo-me a pensar novamente em seus olhos verdes e seus cabelos louros. Lembro-me da incrível sensação que tive, quando não havia mais nada no mundo além de nossos corpos deitados, um ao lado do outro, em um Março colorido e frio.

Novamente tento me perder desses pensamentos. Começo a imaginar quem são aquelas pessoas, acordadas tão tarde da noite. Pergunto-me se elas possuem os mesmos medos e inseguranças que eu. Se elas também estão de olhos abertos pelo simples fato de que, fechá-los pode significar uma enxurrada de lembranças que doem no peito.

Mas logo descubro não ser assim. A mulher do primeiro andar, por trás daquelas cortinas cor bege, não guarda mais sonhos nem medos em seu coração, surpreender-me-ia, até, caso ainda houvesse um coração a pulsar em seu peito de pedra. Seus olhos assistem a um canal qualquer, enquanto, pesados, dizem à sua mente que dormir é o melhor jeito de acabar com esse dia.

Três andares acima e algumas janelas para o lado, é uma luz azul que me chama atenção. Por trás de cortinas de pano azuis, há um rapaz com seus quase dezoito anos. Enquanto joga, em sua mente repete-se a melodia de uma música que nunca ouviu antes. Inventa palavras para aqueles acordes e, ao acordar no outro dia, tentará recordar da última frase da poesia que escreveu em sua mente.

No último andar do prédio, há um homem e uma mulher. São cortinas cinzas que impedem a luz laranja do quarto de produzir sombras na rua. Seus pés não se cruzam. Ela deitada de lado, encara a mesma cortina que eu enxergo agora. Ele, um pouco sentado, tenta encontrar na parede à sua frente as escolham que os levaram até ali. Talvez essa seja a última noite deles juntos, e ela nem mesmo escovou os dentes.

Retorno para mim. Em torno de mim a madrugada pede descanso. E eu não canso de me trair. Ouço sua voz a ecoar pelas ruas laranjas de Recife. Pergunto-me onde estão seus lábios vermelhos, com quais pés os seus se cruzam e qual melodia ecoa em sua mente agora. A dor de amar deve ser isso. Esse sempre imaginar o perfeito, sendo perfeito para um outro alguém. Um perfeito que, aliás, nem existe. De qualquer jeito, amar é imaginar amor, então tudo bem.

Essa segunda-feira acaba também. Como tudo na vida acaba. Amanhã, talvez, sua lembrança esteja menos forte dentro de mim. E eu possa sentar-me na varanda do oitavo andar do meu prédio, sem precisar pôr como cortina uma força que nunca vi.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Sem lar

Sabe a sensação de ter tido sua alma esticada ao máximo e agora tentar colocá-la dentro de um lugar já pequeno? Um lugar que não comporta mais seu peso e seu tamanho. Um lugar que, aliás, nem quer comportar.

Sabe como é perder o fôlego só de lembrança e tentar fechar os olhos para lembrar da sensação de outrora, de amar. Amar simplesmente, sem ligar para o “o que” ou o “como”, sem dar-se conta da posição do sol no céu.

Mas meu amor morreu de tédio, dentro desse espaço pequeno e incomodo. Um espaço que não me recebe mais e no qual não sou mais parte.

E minha alma torcida dentro do pote de vidro. Assisto-o embaçar quando grito.

Mas nenhum dos dois mundos me ouve gritar.

Quase peço socorro, enquanto tento ajeitar meu corpo imenso dentro desse minúsculo lugar. Mas, no tempo certo, me lembro: não há piedade para almas sem lar.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Quando o sol bate na janela do meu quarto,
Minha cama esquenta.
Eu, para não pegar fogo, levanto.
Olho para os lados e vejo paredes brancas,
Abro as janelas e vejo um dia azul.
Gasto cerca de dez segundos a respirar o ar,
Sem prestar atenção em nada,
Sem olhar para as árvores e os pássaros,
Mas de olhos abertos.
Quando, finalmente, enxergo,
Dou-me conta da proximidade do fim.
Não há ponto positivo ou negativo,
Apenas pontos de vista.
O céu azul parece não sofrer com minha ida,
E não sofre.
O velho ao passar pela rua que dá em frente
À minha janela, também não sofre.
A senhora com o saco de pão na mão
Sorri e, mesmo ao lembrar da mocidade,
Não sofre.
Nada sofre.
Não há sofrimento no mundo,
Nem nos olhos cansados dos velhos
Ou nas nuvens pesadas no céu.
Não há, tampouco, sofrimento em meu quarto.
Há uma nostalgia precoce,
Uma saudade prematura.
Meu coração aperta e bombeia, sem medo
Ou insegurança.
Nada no mundo pode assustar um coração
Que dança ao som de um fado.
Dizer adeus é apenas mais um passo
Para conquistar o mundo.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O que posso dizer?

As rosas murcham depois de florirem.
A tinta mancha depois de chover.
O sangue seca depois de sangrar.
O que mais posso dizer?

Não houve sonhos naquele dia

Coloquei meus dois olhos para secar. Eles estavam molhados de lágrimas. Com minha cabeça para fora da janela, olhei os pássaros sobrevoando a casa ao lado. A antena de TV prateada reflectia um sol tímido, mas quente. Meu corpo suava, minhas mãos tremiam e meu coração parecia não existir no peito. Era algo diferente que batia, algo que bombeava desespero.

Sentei na poltrona perto da janela antes de minhas pernas perderem a força. Meu corpo todo tateava o desconhecido, através das horas e dos dias que passariam adiante daquela hora e daquele dia. Meu estômago parecia faminto, mas nada me apetecia. Só sede, sede de algo forte que talvez matasse o gosto ruim na garganta.

Pus minha cabeça para trás, senti o pouco do vento que entrava pela janela aberta. Fechei os olhos, controlei as lágrimas. Depois, ao olhar para o teto, contei os pontos pretos na tinta branca. Não queria pensar, mas minha mente não dormia. O dia amanhecido lá fora e eu sem adormecer.

Engraçado, mas horas antes sentia-me apenas adormecida. Não sentia nem dor, nem tédio, nem raiva, nem medo. Não sentia e ponto. Nada sentia. Lembro de ter sentado na mesma poltrona que ali estava, mas com vista para o céu. Contava as estrelas e esperava nascer rugas em mim. Esperava por estrelas cadentes. Esperava por objectos não identificados. Esperava por aviões. Esperava por qualquer coisa.

De manhã, sentada na poltrona, contando os pontos pretos no teto, já não esperava por nada. Era como se as horas tivessem levado minhas esperanças. Não havia mais lugar para elas. Acho que o vento da madrugada levou meu coração embora e trouxe, consigo, desespero empacotado. Meu corpo todo rugia de dor. E eu, sentada na velha poltrona vermelha apenas ouvia os pássaros voando na casa ao lado, circulando a antena de TV que reflectia o sol.

Adormeci algumas vezes, com a cabeça encostada na almofada. Acordava sempre, em alerta. Havia alguma coisa dentro de mim despertando-me. Havia um barulho em meus ouvidos, um grito não dado, talvez. Se era medo o que sentia, definitivamente não o enfrentei. Batalhei para manter afastado os porquês daquela sensação de desconforto. Mais uma vez era eu, sozinha, na sala, não cabendo dentro de mim.

Qual versão acordaria da próxima cochilada? Era sempre a mesma. A velha mesma. A eu mesma.

Não suportei.

Pus meus sapatos vermelhos e fui caminhar pelas ruas. Desci e subi ladeiras, cheguei ao rio. Sentei-me ao lado de uma árvore grande e antiga. Deitei minha cabeça em suas raízes. Não me importei com as formigas que talvez estivessem a brincar em meus cachos. Não ouvi o barulho das crianças a brincar à beira do rio. Não abri meus olhos ao sentir o sol queimando-me a face.

Adormeci ao lado do rio. Sonhei que a água subia, até cobri-me por inteira. E eu, sem nadar nem nada, deixei-me levar pela correnteza, lavar de mim o suor do dia, levar de mim o desespero que a madrugada havia-me trazido. Quem sabe meu coração não voltava ao lugar e eu, ao abrir os olhos, procurasse no céu claro nuvens em formas de brinquedos.

Acordei alguns minutos depois. Meu corpo transpirava, meu rosto estava sujo de terra. Meus olhos, escondidos atrás dos óculos escuros, não acharam nuvens para brincar. Pus meus sapatos vermelhos nos pés e voltei para casa.

Eram nove e vinte da manhã.

Meu corpo rendeu-se ao cansaço.

Adormeci em minha cama vazia.

Não houve sonhos naquele dia.

Havia apenas uma trágica certeza: ao acordar não será mais dia, meus olhos buscarão no céu esperanças enferrujadas até o sol voltar a aparecer trazendo consigo o desespero do meu dia-a-dia.