Coloquei meus dois olhos para secar. Eles estavam molhados de lágrimas. Com minha cabeça para fora da janela, olhei os pássaros sobrevoando a casa ao lado. A antena de TV prateada reflectia um sol tímido, mas quente. Meu corpo suava, minhas mãos tremiam e meu coração parecia não existir no peito. Era algo diferente que batia, algo que bombeava desespero.
Sentei na poltrona perto da janela antes de minhas pernas perderem a força. Meu corpo todo tateava o desconhecido, através das horas e dos dias que passariam adiante daquela hora e daquele dia. Meu estômago parecia faminto, mas nada me apetecia. Só sede, sede de algo forte que talvez matasse o gosto ruim na garganta.
Pus minha cabeça para trás, senti o pouco do vento que entrava pela janela aberta. Fechei os olhos, controlei as lágrimas. Depois, ao olhar para o teto, contei os pontos pretos na tinta branca. Não queria pensar, mas minha mente não dormia. O dia amanhecido lá fora e eu sem adormecer.
Engraçado, mas horas antes sentia-me apenas adormecida. Não sentia nem dor, nem tédio, nem raiva, nem medo. Não sentia e ponto. Nada sentia. Lembro de ter sentado na mesma poltrona que ali estava, mas com vista para o céu. Contava as estrelas e esperava nascer rugas em mim. Esperava por estrelas cadentes. Esperava por objectos não identificados. Esperava por aviões. Esperava por qualquer coisa.
De manhã, sentada na poltrona, contando os pontos pretos no teto, já não esperava por nada. Era como se as horas tivessem levado minhas esperanças. Não havia mais lugar para elas. Acho que o vento da madrugada levou meu coração embora e trouxe, consigo, desespero empacotado. Meu corpo todo rugia de dor. E eu, sentada na velha poltrona vermelha apenas ouvia os pássaros voando na casa ao lado, circulando a antena de TV que reflectia o sol.
Adormeci algumas vezes, com a cabeça encostada na almofada. Acordava sempre, em alerta. Havia alguma coisa dentro de mim despertando-me. Havia um barulho em meus ouvidos, um grito não dado, talvez. Se era medo o que sentia, definitivamente não o enfrentei. Batalhei para manter afastado os porquês daquela sensação de desconforto. Mais uma vez era eu, sozinha, na sala, não cabendo dentro de mim.
Qual versão acordaria da próxima cochilada? Era sempre a mesma. A velha mesma. A eu mesma.
Não suportei.
Pus meus sapatos vermelhos e fui caminhar pelas ruas. Desci e subi ladeiras, cheguei ao rio. Sentei-me ao lado de uma árvore grande e antiga. Deitei minha cabeça em suas raízes. Não me importei com as formigas que talvez estivessem a brincar em meus cachos. Não ouvi o barulho das crianças a brincar à beira do rio. Não abri meus olhos ao sentir o sol queimando-me a face.
Adormeci ao lado do rio. Sonhei que a água subia, até cobri-me por inteira. E eu, sem nadar nem nada, deixei-me levar pela correnteza, lavar de mim o suor do dia, levar de mim o desespero que a madrugada havia-me trazido. Quem sabe meu coração não voltava ao lugar e eu, ao abrir os olhos, procurasse no céu claro nuvens em formas de brinquedos.
Acordei alguns minutos depois. Meu corpo transpirava, meu rosto estava sujo de terra. Meus olhos, escondidos atrás dos óculos escuros, não acharam nuvens para brincar. Pus meus sapatos vermelhos nos pés e voltei para casa.
Eram nove e vinte da manhã.
Meu corpo rendeu-se ao cansaço.
Adormeci em minha cama vazia.
Não houve sonhos naquele dia.
Havia apenas uma trágica certeza: ao acordar não será mais dia, meus olhos buscarão no céu esperanças enferrujadas até o sol voltar a aparecer trazendo consigo o desespero do meu dia-a-dia.
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