Cá estou eu, sentada na mesma velha cadeira onde sentei-me a meses atrás pela última vez. Agora, no entanto, algo diverge dos meus antigos pensamentos de madrugadas insones. É que eu queria você ao meu lado hoje, embora não saiba o que iria dizer-lhe.
Para não pensar nisso, ou em você, olho para os prédios ao redor. Indago-me sobre as pessoas por trás de janelas ainda iluminadas nessa madrugada de segunda-feira qualquer. Ocorre-me a inevitável pergunta: será que elas pensam em você também?
Não, óbvio que não. Provavelmente não te conhecem, nem mesmo ouviram falar de você. Tampouco ouviram o timbre de sua voz, tão doce e baixo. Nem tocaram sua pele, tão suave e macia. Quando paro, percebo-me a pensar novamente em seus olhos verdes e seus cabelos louros. Lembro-me da incrível sensação que tive, quando não havia mais nada no mundo além de nossos corpos deitados, um ao lado do outro, em um Março colorido e frio.
Novamente tento me perder desses pensamentos. Começo a imaginar quem são aquelas pessoas, acordadas tão tarde da noite. Pergunto-me se elas possuem os mesmos medos e inseguranças que eu. Se elas também estão de olhos abertos pelo simples fato de que, fechá-los pode significar uma enxurrada de lembranças que doem no peito.
Mas logo descubro não ser assim. A mulher do primeiro andar, por trás daquelas cortinas cor bege, não guarda mais sonhos nem medos em seu coração, surpreender-me-ia, até, caso ainda houvesse um coração a pulsar em seu peito de pedra. Seus olhos assistem a um canal qualquer, enquanto, pesados, dizem à sua mente que dormir é o melhor jeito de acabar com esse dia.
Três andares acima e algumas janelas para o lado, é uma luz azul que me chama atenção. Por trás de cortinas de pano azuis, há um rapaz com seus quase dezoito anos. Enquanto joga, em sua mente repete-se a melodia de uma música que nunca ouviu antes. Inventa palavras para aqueles acordes e, ao acordar no outro dia, tentará recordar da última frase da poesia que escreveu em sua mente.
No último andar do prédio, há um homem e uma mulher. São cortinas cinzas que impedem a luz laranja do quarto de produzir sombras na rua. Seus pés não se cruzam. Ela deitada de lado, encara a mesma cortina que eu enxergo agora. Ele, um pouco sentado, tenta encontrar na parede à sua frente as escolham que os levaram até ali. Talvez essa seja a última noite deles juntos, e ela nem mesmo escovou os dentes.
Retorno para mim. Em torno de mim a madrugada pede descanso. E eu não canso de me trair. Ouço sua voz a ecoar pelas ruas laranjas de Recife. Pergunto-me onde estão seus lábios vermelhos, com quais pés os seus se cruzam e qual melodia ecoa em sua mente agora. A dor de amar deve ser isso. Esse sempre imaginar o perfeito, sendo perfeito para um outro alguém. Um perfeito que, aliás, nem existe. De qualquer jeito, amar é imaginar amor, então tudo bem.
Essa segunda-feira acaba também. Como tudo na vida acaba. Amanhã, talvez, sua lembrança esteja menos forte dentro de mim. E eu possa sentar-me na varanda do oitavo andar do meu prédio, sem precisar pôr como cortina uma força que nunca vi.
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